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sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Não Está Tudo Bem

Quando se está sangrando, o cuidado consigo tem de ser redobrado. Mantemos a postura de força para não acabar tudo mal. Porque precisamos viver, continuar, mesmo que haja algo extremamente sombrio nos cercando. Fingir que está tudo muito bem com tudo isso não é a melhor opção, mas preciso. Principalmente quando todas aquelas imagens vêm à tona e toda aquela dor ainda esteja aí, pulsando, rasgando, sufocando. É simplesmente inimaginável que tudo tivesse um desfecho tão amargo. Mas crescemos, amadurecemos à partir de observações, à partir daquela velha história de tentativa e erro. Ou não, talvez nem seja isso. Talvez o que se tem de reparar não sejam necessariamente erros, mas efeitos... Danos. Tanta coisa pode gerar danos que por um momento parece irreparável e por isso machuca, na maioria das vezes. Tudo parece simplesmente uma grande ironia. Nos deparamos com uma enorme tempestade por dentro, que bagunça-nos inteiramente. Tanto nos perdemos no caminho, que começamos a questionar da forma mais injusta possível. Da forma que simplesmente não faz parte do que somos. Primeiro vem a negação, é claro, tem que vir, porque nunca queremos aceitar quando tudo vira de cabeça para baixo. Mas o que não volta, já era, acabou, só sobraram lembranças e um eterno desejo de que as cenas voltem antes do clímax e, por fim, o desfecho. Quando conhecíamos toda aquela leveza, aquela clareza, ares suaves, luzes, tudo muito confortável, onde a felicidade parecia morar, olhos gentis, vozes aveludadas, sorrisos confortantes, que representavam tudo de seguro, de esperançoso em todos esses dias de cão. É engraçado como ninguém escapa da fraqueza de se perguntar "por que comigo???" "Eu mereci isso???" "foi justo?", e a dor só aumenta. Mas chega um momento em que nos forçamos a finalmente aceitar o que não pode ser mudado, porque encontramos terceiros que têm as mesmas feridas e percebemos que não somos os únicos a sentir aquela dor. Enfim, sem mais, o fato é que há uma história...

Há quase dois anos, 19/06 do ano passado, um pedaço de mim foi arrancado e durante todo esse tempo, achei que meu peito explodiria. Eu fico até feliz quando vejo que alguns conseguem superá-lo e fico muito desgostosa quando vejo piadinhas sem graça em relação ao ex-presidente Lula e sua cura bem sucedida, ou mesmo quando ele ainda esteve em tratamento no hospital. Confesso que cegamente, com raiva, cheguei a lamentar porque meu pai não teve o mesmo sucesso e julguei que pudesse ser o poder aquisitivo e a localização. E fui idiota. É uma soma de inúmeros fatores que acarretaram a isso.

Naquela manhã, o telefone toca, e eu não conseguia me mexer. Não dava, e nem conseguia imaginar que aquela ligação poderia ser outra coisa. Não àquela hora da manhã, não tão cedo, e também não depois de tê-lo visitado no hospital no dia anterior e visto todas aquelas imagens. Minutos depois, como o quarto de minha irmã é exatamente ao lado do meu, ouvi seu telefone tocar, não tinha caído mais no sono como usualmente faço quando é tão cedo. E ouvi a porta dela abrir tão bruscamente e eu já sabia bem o que era desde a primeira vez que o fixo tocou. Depois disso, só conseguia ouvir passos desesperados e um grito que me fez entrar em pânico somente por dentro.

Não conseguia pensar direito, só entrei no quarto de minha mãe e vi minha irmã aos pedaços. Praticamente fingi de desentendida e perguntei o que houve, não sei o que aconteceu comigo. Eu não queria mesmo acreditar, a gente nunca imagina a dor do outro tal como ela é até conhecer a própria.

Há dias  em que eu quis acreditar que agora está tudo bem. Queria acreditar que aquelas palavras de minha mãe falando que eu estava lidando com tudo de uma forma positiva fossem verdade.

A única coisa que consigo fazer é explodir. E absolutamente ninguém é tão maduro diante de tão grande dor. Claro, hoje em dia é até uma espécie de obrigação. Passar por cima de tudo e manter-se erguida não é uma opção. Não no momento. Ser racional está muito fora de cogitação.

Mas tenho certeza de que um dia a tempestade passa. Continuarei aqui, vivendo, fazendo o que for preciso, sim. E desejando paz.